CARTA 01 · STELLENBOSCH
Quando a cozinha deixou
de ter plateia.
Na casa de Reuben Riffel, cozinhar deixou de ser uma demonstração e tornou-se convivência.
Cooking in South Africa · Edição vivida
A primeira coisa que desapareceu foi a plateia.
Não havia um salão separando quem cozinhava de quem comia. Não havia uma demonstração montada para ser observada de longe, nem a coreografia previsível de uma aula em que todos sabem quando olhar, provar e aplaudir.
Havia uma cozinha, ingredientes sobre a bancada, perguntas surgindo no meio dos movimentos e um pequeno grupo tentando acompanhar não apenas o que Reuben Riffel fazia, mas a forma como pensava enquanto fazia.
Na escala da sua própria casa, cozinhar deixou de ser uma apresentação. Tornou-se uma maneira de permanecer na conversa.
Uma pergunta sobre técnica conduzia a uma lembrança. Um ingrediente abria espaço para falar de território. Uma pequena correção de gesto revelava aquilo que o prato pronto normalmente esconde: o raciocínio que existe antes da comida.
Foi aí que compreendemos que estar perto de um chef não significa, necessariamente, ter acesso a ele.
A proximidade só ganha sentido quando produz troca.

Depois da cozinha, veio a mesa. E a casa continuou a retirar formalidade sem retirar importância.
O almoço não parecia a recompensa depois de uma atividade. Era a continuação daquilo que já estava acontecendo. Preparos, vinho, histórias e perguntas chegavam ao mesmo lugar. Ninguém parecia precisar encerrar uma conversa para que o próximo serviço pudesse começar.
Quando uma refeição acontece assim, o tempo se comporta de outro modo. Já não estamos tentando compreender a cozinha de um chef. Estamos compartilhando uma mesa com ele.
Esse encontro tornou visível uma das ideias que orientam a World Cooking Experience: um nome importante, uma reserva difícil ou um espaço privado não têm valor por si mesmos. O que permanece é a relação que aquele acesso tornou possível.
Meses depois, ao revermos as fotografias, percebemos que as imagens daquela cozinha não eram necessariamente as mais perfeitas. Eram as mais próximas: mãos, ingredientes, gente ao redor da bancada, pequenas conversas e movimentos que não haviam sido criados para a câmera.
Ninguém estava assistindo de fora.
Talvez seja isso que uma grande viagem gastronômica possa oferecer: não apenas o privilégio de entrar, mas a possibilidade de deixar de ser plateia.
Da mesa,
World Cooking Experience
